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Mas, como lhe disse, um dos objectivos era criar um mercado de arrendamento. Agora se as rendas pagas aos senhorios são iguais às rendas pagas ao banco, não muda nada. Isso vai mudar?
O grande handicap é que há casas para alugar, mas as rendas poderão não estar ao alcance de todas as bolsas. O que se verificou e se está a verificar é que uma parte muito considerável dos nossos concidadãos tem, realmente, rendimentos muito baixinhos. Isto pode ter estado camuflado durante dezenas de anos, mas agora veio tudo ao de cima. É uma vergonha - e eu já disse isso na Assembleia da República -, que passados estes anos do 25 de Abril haja pessoas que sobrevivam com pensões de duzentos e tal euros. Podiam limpar as mãos à parede, com a falta de condições que as pessoas têm. Uma pessoa que tenha uma pensão de sobrevivência - e há muita gente nessas circunstâncias -, nem sequer tem 50 euros para pagar de renda e, com a nova lei, vai ter de pagar mais do que isso.
A ANP lutou por rendas mínimas de 50 euros...
Durante anos lutámos por que houvesse uma renda de 50 euros, porque há rendas de cinco euros e menos. E devo dizer que quem habituou mal os inquilinos foram desde logo as câmaras, porque a maior parte dos inquilinos da Câmara Municipal de Lisboa paga rendas inferiores a 50 euros. E algumas nem sequer são em bairros camarários, porque a câmara de Lisboa, tal como a do Porto, tem muito património disperso. Há pessoas que podem morar nesta rua [D. Pedro V, em Lisboa] sem pagar por isso. Está claro que é preciso ter conhecimentos dentro da câmara...
Mas tirando esses casos, não há casas para alugar por cinquenta euros...
O que acontece é que para haver mercado de arrendamento teríamos de ter pessoas com dinheiro para alugar uma casa. E quando chega a altura, aparecem candidatos mas muitos não têm garantias nem para alugar um quarto, quanto mais uma casa. Se peço uma renda de 500 euros em Lisboa é em conta. Mas se o ordenado do candidato é de 485 euros... Não é possível.
Que garantias são exigidas a quem quer alugar casa?
Não aconselhamos ninguém a alugar uma casa a um agregado familiar que não tenha um rendimento mensal de pelo menos o triplo do valor da renda. Isto significa que se a pessoa tem um rendimento e 900 euros por mês nunca pode pagar, no limite dos limites, mais de 300 euros de renda. Se não, vai haver chatice. Não há milagres, a pessoa tem de comer, tem de se vestir, tem de se transportar...
Foram essas contas que a banca não fez?
Foi o que aconteceu com a compra de andares. Como é que pessoas com ordenados baixíssimos fizeram esse negócio, sem rendimento, sem trabalho, sem activos, como é que se faz? Como é que os bancos venderam andares a estas pessoas é que me pergunto.
As condições também se foram degradando...
Mas era expectável. Tudo a endividar-se... Esta bebedeira durou 20 anos. Houve aqui uma ilusão colectiva. E quem está a ter problemas agora não é quem entrega a casa ao banco - e ainda há bancos que querem receber dinheiro além disso -, são os fiadores. Muitas vezes os fiadores eram os pais, que tinham uma casinha e que vão ficar sem ela. Isso é que é dramático. Tem de ser casa entregue, dívida saldada. Não adianta estar a abanar a pessoa. Para quê, se a pessoa não tem? Ao menos que ganhe fôlego para poder começar.
