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Ruas inteiras vazias em sentido figurado ou de facto?
Há ruas inteiras! A Rua da Boavista, em Lisboa. A Rua de Santa Catarina, que é uma das principais ruas do Porto. De Gonçalo Cristóvão até ao Marquês as lojas estão todas vazias e é uma rua de primeira. A própria rua de Santo António, que agora se chama 31 de Janeiro, está cheia de lojas. Há centros comerciais cheios de lojas vazias, o que era impensável, até naves industriais.
E os senhorios e inquilinos têm negociado a baixa de rendas, por exemplo?
A maior parte dos arrendatários tem pedido para baixar as rendas, até para metade. Há comerciantes que estavam a pagar 2 mil euros - que houve uma altura em que as rendas estiveram um bocado elevadas -, a passar para mil. Perguntam-me: devo ceder? Claro, pelo amor de Deus não deixe o arrendatário ir embora. As câmaras têm brigadas - são estes os empregos jovens que arranjam -, a fazer levantamentos pelas ruas fora: procuram casas devolutas, assentam e depois os proprietários são notificados. A sua casa vai passar a triplicar. Já estão a fazê--lo em Lisboa, mas até foi no Porto que começou mais assanhado.
Um dos objectivos era, além de equilibrar os valores do IMI, estimular o mercado de arrendamento. Mas as rendas não baixam...
Hoje não se aluga nada. A época dos anúncios no Diário de Notícias já passou. Agora, e quando funciona, é no Correio da Manhã e no JN. Alugaram-se muitas lojinhas pequeninas para o negócio do ouro, mas isso é um negócio sazonal, dura um ano. Há a perspectiva de quem faz as leis de que o proprietário tem de ser castigado, é um malandro. Quem juntou dinheiro devia tê-lo gastado em cruzeiros, em safaris, a matar elefantes em África... O proprietário é a pessoa que conseguiu juntar, poupar, para comprar. Também há vidas de trabalho e de pessoas que se privaram, tiveram uma vida de renúncia, como se dizia antes, para ter qualquer coisa sua têm de ser acarinhadas, não têm de estar sempre a levar por tabela. Nesta história do IMI há muitas pontas que estão mal.
Está a falar-me em arrendamento comercial. Mas no caso do arrendamento habitacional?
Nos casos da habitação há muitas casas que estão devolutas em zonas históricas das cidades mas que vêm de contratos de dezenas e dezenas de anos em que o inquilino, quando foi embora ou morreu, deixou a casa num estado de pós-guerra civil. Estiveram ocupadas 50, 60 ou mais anos e não houve manutenção, porque as rendas eram irrisórias e não permitiam obras. E não se mete lá ninguém. Não há o perigo, sequer, de serem ocupadas por indigentes. E o proprietário está descapitalizado. Há até muitos proprietários que nem querem que os inquilinos morram tão depressa, porque não têm dinheiro para fazer as obras. Num prédio, se morrem dois de rajada não há dinheiro para arranjar os dois apartamentos. Esta situação de rendas baixinhas propiciou e potenciou ódios de parte a parte. Eu tenho vários inquilinos e os que gostam menos de mim e me odeiam são aqueles que, provavelmente, pagam rendas de 50 euros. Os que pagam rendas de 600 euros têm um relacionamento às vezes até agradável.
