O aumento generalizado das rendas antigas está a ter um forte impacto no pequeno comércio, como conta António Machado, da direção da AIL. "O proprietário de uma lavandaria viu a sua renda aumentar de 400 para 1 500 euros. Decidiu fechar." Júlio Cunha trabalha numa barbearia, na Rua dos Anjos, em Lisboa, arrendada pelo seu avô, em 1904. "Atualmente pago 30 euros de renda", conta o barbeiro, de 75 anos. "Se o valor proposto pelo senhorio ultrapassar os cem euros, prefiro encerrar e ir para o sofá." António Frias Marques, presidente da Associação Nacional de Proprietários, admite que as rendas antigas vão subir em bloco. "Os senhorios não hão de inibir-se de aumentar valores que estão muito desatualizados", antecipa. "Em alguns casos, o processo ainda não arrancou, porque falta concluir a avaliação de cerca de 30% dos prédios. Esse dado é essencial para calcular o valor da renda."
E OS RECENTES DESCEM
No caso das rendas recentes, a tendência é inversa. João Anastácio, 80 anos, economista reformado, é proprietário de 30 apartamentos. Não aceitou ser fotografado por considerar que a figura de "senhorio" é cada vez menos popular. Mesmo apesar de, nos últimos meses, ter diminuído a renda a vários inquilinos. "Recentemente, baixei uma renda de 1 300 euros para mil, a um grupo de arquitetos que praticamente não têm trabalho", conta.
É uma questão de bom senso, justifica: "Quando sai um inquilino, perco quatro meses de renda por causa das obras de recuperação, do pagamento do serviço a uma imobiliária e do tempo de espera." Desde 2010 que o valor das rendas desceu cerca de 13%, segundo dados da APEMIP (associação que representa as empresas de mediação imobiliária). O presidente da Associação de Proprietários confirma que a palavra de ordem junto dos seus associados é a de "não aumentar " rendas recentes. "Alguns valores encontravam-se inflacionados, por isso os senhorios têm alguma margem para descer", explica António Frias Marques.
"O mercado está muito complicado, não faz sentido perder um bom inquilino só para ganhar mais 3,3% de renda [atualização anual prevista na lei]." Pelas contas da APEMIP, o valor médio das rendas (muito diferentes porque variam conforme a região, as dimensões das casas, a sua antiguidade, etc.) desceu de 834 euros, em 2010, para 726 euros, em 2012. Uma queda significativa que, segundo os especialistas, se manterá em 2013. As carteiras agradecem.
